Me fascinou essa frase do senhor Antony de Mello, pra mim um ilustre desconhecido. A vi num livro argentino de citações de grandes caras da literatura. Não conheço o senhor Mello, nunca li nada dele, nem sei quem é, mas já gostei do sujeito por ter escrito tal frase. É forte, densa, e nos põe a pensar um pouco a respeito. Só um pouco.
Primeiro, e isso é bom ressaltar, concordo plenamente com a frase, mas eu acrescentaria algo na sentença para torná-la, certamente, mais coerente. Ficaria assim, vou colocar em nossa língua pátria: “Somente se amas serás feliz, e somente serás feliz se amas...e se amado for”. Não se pode pensar que, somente amar é o suficiente para ser feliz. Para ser feliz mesmo é fundamental ser amada. Amar sem ser amada é pior até que odiar. É impor a si mesmo um sofrimento avassalador. Não desejo isso a ninguém.
Daí a importância de uma frase infelizmente vulgarizada em novelas e romances imbecis: “eu te amo”. Por favor, não se deve dizer essa frase a uma pessoa movido apenas pela euforia de uma paixão, tesão ou grande afeto e desejo. Não faça isso nunca. Se fez alguma vez, não faça mais. “Eu te amo” é muito forte e recomenda-se ser empregado somente quando há amor verdadeiro.
Não existe amor de ocasião, de interesse, de Verão, ou de praia. Não existe amor pequeno, grande ou inocente. Não existe amor tênue, ligeiro ou inconseqüente. Nem tampouco existe amor volátil ou efêmero. Amor não começa da noite para o dia, muito menos termina num par de anos. Outros sentimentos podem se encaixar nessas formas todas que acabei de mencionar, mas amor não. Carinho, afeto, tesão, paixão e outras coisas mais cabem perfeitamente nas situações acima, mas amor, definitivamente, não.
Tesão pode terminar com um gozo. Carinho pode ser tão efêmero quanto um beijo. Afeto é volátil, se acaba com uma frustração qualquer. Paixão dura até um par de anos. Amor não se consegue contar o quanto dura. Tenha certeza, não se consegue.
Vinícius de Moraes, um de meus maiores ídolos da poesia, foi bem mal interpretado com seu verso sobre o amor “que seja eterno enquanto dure”. O grande mestre confundiu gerações e gerações de pessoas que achavam que o amor era algo, assim, volátil. Que poderia durar, por exemplo, até alguns dias apenas. Ora, basta conhecer um pouco da biografia do nobre poeta para tomar conhecimento de que ele sabia muito bem o que era o amor, mas era um grande apaixonado por mulheres e colocava a beleza sempre em sua mesa. Vinicius se apaixonou mais do que amou, e teve muito mais tesão que paixão.
Amor é outra coisa. Dura muito. Não se acaba com uma frustração, não se dilui com o tempo, não se afeta com a distância, não se dispersa sob guerra, não se acovarda diante dos inimigos, não se encolhe frente aos grandes obstáculos, não desbota se separado por um oceano. Amor é foda, amigos. É algo muito forte. Não o confunda mais com outros pequenos, porém saborosos, sentimentos. E, por favor, quando for dizer a alguém “eu te amo” saiba de uma vez por todas o que realmente é amor. Vinicius de Morais sabia muito bem, mas todo poeta que se preza gosta de brincar com seus versos e confundir um pouco seu público.
Sim, eu quero um amor. Pode ser piegas, brega e fora de moda. Mas eu quero. Pode ser em desacordo com os preceitos elementares da intelectualidade, mas não me importo, eu quero um amor. Pode não combinar com uma escritora louca, e com pretensões de conhecer o mundo. Nem ligo pra isso. Ah, quando escrevo sobre minha quase felicidade ao lado de meu amor, quando lembro dos toques, das coisas juntos, das pequenas atitudes do cotidiano. Tudo isso me enche de fugaz felicidade. Até mesmo estar ao lado dele quando ele dirige o carro. E buscar um copo de água no meio da noite? Tem coisa mais saborosa? Comprar um remédio na farmácia, buscar pão pela manhã, fazer o café para ele. Sim, eu quero um amor.
Quero rodar o mundo, conhecer culturas, mas sempre ao lado de um grande amor. Quero conflitar o mundo, fazer minhas bravatas, discordar dos absurdos, mas ao lado de um amor. Quero andar na terra, navegar nos rios, cruzar os mares, subir montanhas, conhecer ilhas, dormir na areia, andar na neve, mas ao lado desse meu amor. O quero comigo nas quatro estações. Se espirrar, serei a primeira a dizer-lhe “saúde”. Se espirrar novamente, boto-lhe um agasalho. E mais um espirro, vou medicá-lo. Quero cuidar de meu amor.
Ah, sim, se ele estiver por perto, muito carinho. Se longe estiver, saudade toda hora. Esse é o amor que quero. Que sempre sonhei. Que espero enquanto minha vida durar. Não me importa se é piegas, brega ou lugar-comum. Quem sonha pode um dia realizar, quem não sonha, apenas dorme. Sonho em estar ao lado de um grande amor. Que me diga “eu te amo” todas as vezes. Que faça amor comigo loucamente, que me seduza se me distrair desse prazer por alguns minutos. Ah, eu vou desejá-lo todos os dias, vou querer conquistá-lo nos mais impróprios momentos e nas manhãs mais frias quero aquecê-lo com olhos e mãos, e pernas, e braços, sempre, cada poro de seu corpo.

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