quarta-feira, 5 de maio de 2010

Ser ou não ser só...

A parte boa de morar sozinha é quase óbvia: chegar em casa depois de um dia chato de trabalho e não precisar ser simpática com ninguém, poder dar festinhas das mais “loucas” as mais tradicionais, dormir até a hora que quiser, ser dona de um banheiro exclusivo (aliás, de uma casa inteira exclusiva), encontrar as coisas onde deixou, ter uma foto do Elvis Presley, uma do Ayrton Senna, uma dos Beatles convivendo pacificamente na sala sem ninguém te achar esquizofrênica...
Já a parte chata é bem mais curta, simples, direta e realmente muito chata: não poder delegar coisas. Como eu queria berrar “agora é a sua vez de limpar o banheiro ”. Ou pedir um copo com água depois que já estou quentinha embaixo das cobertas.
Queria também, muito, ter para quem delegar funções nada femininas como arrumar o varal que despencou, trocar a resistência do chuveiro(que já me estragou o esmalte umas duzentas vezes), receber os tios “cara de que nunca viram mulher” da instalação elétrica. Essas coisas...
Mas não tem. Simplesmente não tem quem chamar. Quando acaba a luz, lá vou eu no escuro, achar uma vela. Quando as compras estão muito pesadas eu tenho que escolher entre carregar as compras ou carregar as compras, acabo adquirindo uma força que nem eu sabia que tinha. Quando a vizinha resolve escutar Forró (tem coisa mais brega?) bêbada, às 3 da manhã, e brigar com o marido no meio da rua aos berros, sou eu, sozinha, que perco o sono. Tem horas que eu pagaria feliz só pra ter alguém que fizesse tudo isso por mim. Mas acho que ninguém gostaria de fazer um estágio de mãe na minha casa. Ou gostaria?
Fez quinze anos que moro sozinha, me mudei para minha casa pequena com vizinhos loucos que martelam durante a manhã e escutam bate estaca durante a noite, chuveiro que esquenta-esfria e eletroeletrônicos que apitam, estralam, dão choque e até andam sozinhos.
Mas olhando para a minha casinha com todas as coisas que eu mais adoro no mundo (músicas, livros, filmes, pôsteres, revistas, cremes, roupas, silêncios, velas, recordações, fotos...) eu penso que carregar sozinha o peso das compras e da vida vale muito à pena. Acho que acabei ganhando alguns músculos necessários para ser uma mulher de verdade. Aqueles que ninguém ganha na academia da moda.

Krika



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